sábado, 12 de janeiro de 2013

Ler

O acto de ler tem qualquer coisa de mágico.
Quando crianças, começamos por aprender o significado de uns "desenhos estranhos", uns "desenhos" que nos ensinam chamar-se letras, mas que nossa pouca idade não nos permite entender. 
Depois, lentamente, devagar, entramos de mansinho nesse novo mundo. E aprendemos o significado de cada letrinha, e aprendemos a juntá-las uma a uma. E aprendemos e ler uma palavra, e depois outra e outra e outra e mais outra.
Depois?
Depois é o deslumbramento!
Depois é querer ler, mais e mais, de forma sôfrega, louca. 
Depois é o querer agarrar o mundo através da leitura.
Depois é querer conhecer o Homem, o Mundo, conhecer tudo como se tempo nos escapasse.

Depois?
Depois aquilo que é um prazer começa a funcionar como se fosse um vício. 
E são os livros que se compram uns a seguir aos outros. 
E é a estante a abarrotar.
E é o frenesim de querer ler tudo de uma só vez!

E é o prazer único de ler Homens maiores. Homens de nos escacaram as portas da Alma, Homens que nos arrastam, que nos fazem mergulhar, partilhar das suas dúvidas, certezas, visões do mundo, visões do Homem.




Acabei de ler A ilha, de Sándor Márai. 
Notável, belíssimo. Atrevo-mo a salientar o último Capítulo e o espantoso diálogo com Deus.

Um pequeníssimo excerto:

"Sentou-se na margem da clareira, em frente da cidade e do mar aberto (...). Invadiu-o uma satisfação peculiar: agora que estava finalmente sozinho podia falar com Ele em privado (...). 'Sabes, na realidade não tenho passado bem, disse em tom confidencial', (...) 'Não é verdade que as grandes dores são insuportáveis... O que não se pode aguentar são as pequenas (...). 'Separadas nem se notam, insisto, apenas em conjunto são insuportáveis.' (...) A tua obra, no seu conjunto, é capaz de ser perfeita, não sei. Mas os pormenores são imperfeitos."

in, Márai, Sandór. (2012). A ilha. (pp. 147-149). Alfragide: D. Quixote.


4 comentários:

  1. Olá GL,
    Muito bonito este seu texto sobre o "Ler", e relata com muita precisão todos os estádios da aprendizagem da leitura, até à paixão.
    Houve um livro (2 volumes, em francês) que me apaixonou há muitos anos atrás, e que me ficaram gravados na memória, foi "Les Misérables"... agora até há o filme, que vou tentar comprar o DVD, só que deve ser uma amostragem do seu extenso conteúdo.
    O livro que nos mostra, " A Ilha" também deve ser uma maravilha, mais um para constar da lista...
    Um beijinho para si GL.
    p.s. respondi à sua revisita ao meu espaço


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    1. Olá Maria Eduardo,

      Considero "Os Miseráveis" uma obra de referência, uma obra de sempre.
      Fui ver o filme. Trata-se de um musical muito agradável de ver, com uma boa banda sonora, mas longe, muito longe, da grandiosidade, da riqueza, da obra literária.
      Quanto à "Ilha", caso tenha oportunidade, aconselho-a vivamente a lê-lo. Vale a pena, verá.

      Beijinho.

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  2. L-E-R Para alguns uma "obrigação". Para outros um "instrumento". Ler não é só juntar letras e depois palavras e depois frases. Ler é sentir cada letra, a cor, a textura. Ler é avaliar a temperatura de cada palavra. Ler é domar cada frase. É viver. É aprender. É uma permanente transformação. Ganhamos, asas, criamos raízes, utilizamos, modificamos, enganamos(o nosso eu), exorcizamos através dos livros. O Excerto da "Ilha"? Muito bem escolhido, mas assustador. Nós somos os pormenores!

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    1. Gostei da sua "leitura" da leitura.
      Atrevo-me a felicitá-lo(a) pelo dom que mostra possuir. É que poucos "bebem" dessa magia, atingem esse ganhar asas, esse deslumbramento.
      Não percebo o porquê do excerto ser assustador. Nós fazemos parte dos pormenores, não somos os "pormenores".

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