terça-feira, 12 de março de 2013

A palavra.

Quando a palavra é tratada com mestria, e que mestria!
Quando a realidade dói, destrói.
Quando a vida se tornou, para muitos, um pesadelo.
Quando?...



"Ele estava desempregado há muito tempo.
Tinha filhos e do trabalho restavam cadilhos. E da fome sobravam rastilhos.
Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão.
Ele estava desempregado há mais tempo do que sabia, e mesmo se não queria, tinha filhos, aceitou.
Logo ali no cepo a deixou.
A mão, a mão, a mão.

Outra vez despedido de novo procurou emprego.
Só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão, aquela que te resta, a segunda mão.
Ele estava desempregado, tinha filhos, aceitou.
Porque o tempo lhe fugia entre os últimos dedos lhe fugia,
a mão, o tempo, a mão.

Porque o tempo lhe fugia, entre os últimos dedos lhe fugia,
a mão, o tempo, a mão.

E quando um dia lhe disseram; só tens emprego se te cortarmos a cabeça.
Ele estava desempregado há mais tempo do que podia, tinha filhos, aceitou, e baixando a cabeça, aceitou.

Porque o tempo lhe fugia, entre os últimos dedos lhe fugia,
a mão, o tempo, a mão."

Autoria: Gonçalo. M. Tavares.

E é mágoa, e é a revolta pelo sofrimento infligido àqueles que não têm qualquer 
responsabilidade neste descalabro !



7 comentários:

  1. Gl,

    Este texto é sério, tal como toda a situação que nos envolve e julgo que deveríamos reflectir com muita atenção no que ele nos diz (e se possível agir, não mudamos o mundo mas podem mudar uma vida).

    Abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O texto remete para dois dos maiores dramas da actualidade: o desemprego e a escravatura daí resultante.
      "Escravatura", perguntará?
      Sim! Muitos, se querem manter o triste emprego que têm são obrigados a aceitar as "regras dos jogo" que lhes são impostas, regras que têm em vista tudo, excepto o respeito, excepto a justiça.
      Quem de direito está atento?

      Abraço.

      Eliminar
  2. Todos nós, para poder denunciar esses casos.

    Abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sim, estamos!
      Ou devemos estar.
      E "quem de direito" tem em conta as nossas denúncias?!

      Eliminar
  3. Um texto arrepiante, mas retrata bem o desespero e a necessidade de cumprir os compromissos aos quais não se pode fugir. Quantas pessoas não se vêem forçadas a aceitar empregos duvidosos só porque têm que assegurar a sua subsistência e a dos seus familiares! Infelizmente, com a falta de empregos e a grande competitividade, estão a acontecer situações alarmantes que julgávamos já abolidas do vocabulário deste século: a escravidão!...
    Esperemos que haja um repensar dos comportamentos da sociedade e que este palavrão negro e horroroso seja substituído por "Alegria no Trabalho e Alegria de Viver a Trabalhar".
    Vou tentar saber mais sobre o autor deste texto, pois tem uma visão da sociedade muito realista.
    Um beijinho para si e bom-fim-de-semana.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O período que estamos a viver é dramático, todos sabemos isso, só que há situações que ultrapassam tudo, que vão para além do tolerável, e o desemprego com o seu rol de consequências é uma delas.
      O drama que a grande maioria vive, o desrespeito transversal a todas as faixas etárias, a falta de esperança comum a todas elas, é qualquer coisa de intolerável.
      Não, não me conformo!
      Beijinho.

      Eliminar