quinta-feira, 18 de abril de 2013

Recordando (sempre), e reflectindo!


"A poesia vai




A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o principio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
- Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? -"

Pina, M. A. (2012). Poesia, Saudade da Prosa - Uma antologia pessoal


E deixo-vos a interrogativa.


5 comentários:

  1. A poesia vai acabar?


    A um Jovem Poeta

    Procura a rosa.
    Onde ela estiver
    estás tu fora
    de ti. Procura-a em prosa, pode ser

    que em prosa ela floresça
    ainda, sob tanta
    metáfora; pode ser, e que quando
    nela te vires te reconheças

    como diante de uma infância
    inicial não embaciada
    de nenhuma palavra
    e nenhuma lembrança.

    Talvez possas então
    escrever sem porquê,
    evidência de novo da Razão
    e passagem para o que não se vê.

    Manuel António Pina, in "Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança"

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Entre o jovem poeta e o senhor míope vai uma distância sem fim. Estamos a falar de duas paralelas que nunca se tocam.
      Ao jovem AINDA é permitido sonhar.
      Ao Senhor míope já tudo foi ROUBADO, até o sonho.

      Por favor, deixem-nos ser singelos observadores de pássaros!...

      Eliminar
    2. Não sabe realmente, "GL".
      Porque é que ao senhor míope já tudo foi roubado?
      Pode ser míope para repartição, para o trabalho que o "obrigam" a fazer.
      Pode atender devagar porque tem demasiados pássaros presos dentro do peito.
      (posso tentar ver onde o autor quer chegar, mas posso chegar até outro ver. Afinal a poesia é de quem a escreve mas também de quem a lê. Se não é para ser assim porque é que os autores a publicam? Ficava só para eles)

      Abraço grande

      Eliminar
  2. A poesia existirá sempre, enquanto o homem tiver capacidade de sonhar!
    Gostei deste poema de Manuel António Pina.
    Um beijinho e uma boa semana

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Diz bem, Maria Eduardo: "enquanto o homem tiver capacidade de sonhar".
      Só acrescento: enquanto lhe for permitida essa "veleidade" chamada sonho.

      Beijinho.

      Eliminar