sexta-feira, 19 de julho de 2013

Com todo o respeito.



A mão num gesto que fica suspenso. A chave do carro na mão fechada.
Atrás de mim uma voz, calma.



- Mãezinha, com todo o respeito.

Viro-me. À minha frente, um homem parado, olha-me.
Africano, magro, um homem sem idade (que idade terá?) de olhos tristes, mas doces, ingénuos, uns olhos onde não há sombra, nem de raiva, nem de rancor, nada, apenas sorriem num misto de ingenuidade e inocência.
O fato de treino que enverga, enorme, gasto, desbotado, não esconde a magreza extrema, não disfarça o abandono, a carência, uma carência provavelmente de tudo.
Olho-o. Sorrio.
- Mãezinha, com todo o respeito, podia…
O meu gesto fê-lo parar, expectante. 
- Mãezinha, com o todo o respeito.
Pausa.
Olho-o, olhos nos olhos.
- Mãezinha, com todo o respeito, estou com alguns problemas. Será?...
Nova pausa.
- Mãezinha, com todo o respeito, será que me podia ajudar? Mãezinha, com todo o respeito…
À introdução de uma nova fala, sempre, o para mim já adivinhado: “Mãezinha, com todo o respeito”.
Continuo a olhá-lo, continuo a sorrir. Quero que se sinta à vontade, quero que saiba que estou a ouvi-lo, quero que sinta que há alguém que lhe dispensa um pouco do seu tempo.
E a frase suspensa.
- Mãezinha, com todo o respeito, po…
Não o deixo concluir. Abro a carteira, engulo raivas e fúrias que não quero adivinhadas. 
Ele? Ele, num sorriso de menino, num sorriso doce, tão doce!
Estendo a mão. Olha-me. Estende a mão, abre-a. Deposito na concha que forma, a tão desejada “ajuda”.
E o sorriso de sempre, e o ar de menino de sempre, e de sempre o agora:
- Mãezinha, com todo o respeito, muito obrigado.
Afasta-se.
Cruza-se com um jovem que passava. Ainda o ouço dizer:
- Paizinho, com todo o respeito, podia…
Entro no carro. Arranco. E aquela frase que me acompanha o dia todo.
“Mãezinha, com todo o respeito…”


Que dizer da abordagem deste Homem?!




9 comentários:

  1. Mendicidade envergonhada? Como se deve ter sentido embaraçada para compreender o que a rodeava? Os agora mendigos já foram crianças cheias de sonhos e adultos com vidas organizadas, no entanto o destino trocou-lhes as voltas e deverão continuar a merecer todo o nosso respeito independentemente do tipo de abordagem!
    Gostei do que escreveu.
    Um beijinho e bom fim de semana

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Há dramas, Maria Eduardo, dramas absolutamente inconcebíveis, muitos deles inimagináveis para a maioria de nós.

      Bom fim-de-semana.

      Beijinho.

      Eliminar
  2. Olá "GL"

    Que história de vida esconde este homem?
    E quem somos nós para julgar o "outro"?
    Numa ocasião, um arrumador de carros que tinha "fama" de ser "vingativo" para quem não lhe desse uma "moedinha" ajudou-me e quando lhe foi oferecida a moeda não aceitou, deu um aperto de mão e disse "eu também tenho princípios"!

    Abraço grande

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Boa questão! Nem imagina o que dava para a conhecer!
      Por princípio nunca julgo o "outro", muito particularmente um "outro" que não conheço. Neste caso concreto, ou noutros similares, é-me impossível, sequer tentar.
      Que sei eu do sofrimento daquele homem? Que sei eu da capacidade - mau grado a miséria estampado no todo que era o seu facies, o seu corpo - de manter aquele sorriso ingénuo e doce?
      Que sei eu?...

      Abraço grande.

      Eliminar
    2. Apenas mais um ponto.
      Que dizer da atitude do arrumador de carros? Como vê, as dificuldades nem sempre roubam a dignidade.

      Outro abraço.

      Eliminar
  3. Com todo o respeito, lê-se e lamenta-se.

    ResponderEliminar
  4. Triste, sempre tristes essas situações com as quais nos deparamos cada vez mais.
    Mas estranha abordagem! Não a do "respeito", que é uma forma provavelmente subconsciente de nos fazer 'desarmar' das defesas todas que transportamos. Mas sim a do "paizinho" e "mãezinha". Será uma forma de tornar a moeda uma coisa mais... normal?
    Nâo sei que diga, mas eu também ficaria com a frase a perseguir-me.

    Beijinho

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Esta atitude causou-me (causa-me) dois espantos: qual o porquê do mãezinha e paizinho, e como é possível, apesar da miséria, manter aquele sorriso sereno, sem rancor
      Mistérios para os quais não encontro resposta.

      Beijinho

      Eliminar