sábado, 2 de novembro de 2013

Dois Homens, dois mundos!

Ouvi, há pouco, a entrevista a Valter Hugo Mãe. Fiquei com a sensação de estar perante um Homem desassossegado, semi crente, semi ateu, um Homem que, mau grado todo o seu percurso, parece  não se ter encontrado.
Mas...?
 
À tarde fui confrontada com um Homem excepcional. Um Homem liberto de todas e quaisquer dúvidas.
Saio, para tomar a bica imprescindível. A pastelaria habitual, cheia. Olho uma mesa ocupada  com apenas uma  pessoa.
Aproximo-me.
Sentado, tranquilo, um Homem idoso, sózinho, bebe o seu café. Olho-o, sorrio, pergunto se me posso sentar. Rosto simpático, olhos muito azuis, diz que sim. Sento-me. Olha-me, "analisa-me".
- Um vicio, o café, diz.
Concordo.
E a conversa surge, naturalmente. A determinada altura faz uma pausa e, de chofre a pergunta:
- Que idade me dá?
Respondo:
- 70 anos.
Sorriso gaiato, tira a carteira do bolso, mostra o Bilhete de Identidade.
- Veja aqui "ordena".
Olho, e...? 92 anos! Aquele Amigo tinha 92 anos. Boquiaberta, não queria acreditar! A conversa continua.
E fala de História, e fala de política, e fala das potencialidades do país em termos agricolas e piscatórios. E critica as medidas que estão a ser tomadas. E fala da juventude, da dele e da actual. E da vida desses anos idos. E das regalias laborais que tinham.
- Eu trabalhava na Carris, no tempo dos ingleses, esclarece.
 E aponta os caminhos a seguir. E eu maravilhada, e eu a beber cada palavra, cada gesto. É que sentado à minha frente estava, não apenas um Homem, mas um pedaço de História.
Levanto-me, despeço-me.
Caminho fora agradeço a Deus aqueles momentos. Bendigo a lucidez com que presenteou aquele Homem, uma lucidez absolutamente espantosa.
Pegando nas palavras/dúvidas de Valter Hugo Mãe interrogo-me: se Deus existe, porque contempla tão poucos com esta benção?
Hoje?
Hoje pela mão daquele Homem sábio, vivi momentos mágicos.
 
NOTA: As minhas desculpas pela "mancha" anterior do texto, pelos lapsos vários. Queria postar ontem, (receava hoje não ter oportunidade) tendo como único recurso o telemóvel, o que (me) limita seriamente a elaboração de um texto minimamente aceitável.

12 comentários:

  1. Muito curioso este encontro de gerações! As pessoas mais idosas transportam enciclopédias de história com elas. Adoro ouvi-las e absorvo tudo o que transmitem, histórias da vida, histórias da própria história!
    Um beijinho GL e obrigada por este testemunho de vida!
    p.s. Vou estar ausente por algum tempo numa missão de ajuda familiar. Não vou estar disponível para a seguir, com muita pena minha. As minhas desculpas.
    A vida é feita de partilhas! Voltarei em breve. Um beijinho e boas postagens.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Extremamente gratificante, sem dúvida.
      O que se aprende? Uma coisa espantosa!...

      Não tem que pedir desculpa, ora essa! Se bem que vá sentir a falta das suas palavras, da paz do seu cantinho, é obvio que há momentos, factos na nossa vida muito mais importantes que um simples blogue.
      Como diz, e bem, a vida é feita de partilhas, muito principalmente em momentos menos bons.
      Desejo que tudo corra o melhor possível com o seu familiar.

      Bom (e rápido!) regresso.

      Até breve.

      Beijinho, Amiga.

      Eliminar
  2. Um beijo e obrigado por me proporcionar uma boa reflexão.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Dá que pensar, dá!

      Boa semana.

      Beijinho.

      Eliminar
  3. Não era um velho
    era um jovem com experiência

    ResponderEliminar
  4. TAlvez, se tiver oportunidade, o VHM ( assim escrito em tua honra) aos 92 seja um homem sábio e "encontrado".
    Tens razão, há muitos que nunca se encontram e não é por falta de procura (será o problema? procura em vez de aceitação), mas fico mais descansado por saber que a culpa é de Deus. Não dá o "dom" a todos!

    Abraço grande e desculpa

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Agradeço a gentileza! Já viu o tempo que poupou?:)
      Não partilho dessa opinião. Qual a oportunidade que dá azo à sabedoria? Tratar-se-á de uma questão de oportunidade?

      Quando se procura uma resposta lógica para tudo, Amigo, não há Deus que nos valha.
      Uma coisa é verdade: as oportunidades, e de forma transversal, não são iguais para todos.

      Abraço grande.

      Eliminar
  5. OLá :)

    Curiosamente tenho a mesma opinião sobre o escritor cuja entrevista vi apenas uma parte mas cuja ideia já se havia formado há tempo pelas enésimas entrevistas entretanto dadas...

    E adorei a "ousadia " no "posso sentar-me"? e com isso se ter metido conversa com alguém tao vivamente humano ainda que em momentos fugazes de conversação...

    gd beijinho

    ResponderEliminar
  6. Olá, Lobinho!

    Tenho lido, com muito prazer, alguns dos livros que tem publicado. A ideia que fazia de VHM era a de um indivíduo bem estruturado, alguém que aliava uma grande sensibilidade a algum pragmatismo e, afinal?...

    Se me conhecesses não estranhavas a "ousadia". Sou, naturalmente, assim. Então se sinto estar perante alguém que se me afigura interessante, carente, solitário, aí, a "ousadia", aumenta significativamente.
    Perigoso, pensarás. Não, não é! Tenho conhecido pessoas fabulosas enquanto seres humanos. Mas, atenção, não a "meter" conversa com toda a gente.:))

    Beijinho, Lobinho.

    ResponderEliminar
  7. Sobre o escritor (ainda) pouco mais sei do que o nome.
    Desse encontro magnífico apenas posso dizer que lhe desejo que mais encontros assim aconteçam. É uma forma de nos conciliarmos com a passagem do tempo. Afinal, pode ser que ele nos dê sabedoria...

    Beijinho

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sugiro-lhe, para começar, "A máquina de fazer espanhóis". Talvez - na minha modesta opinião - o livro mais conseguido.

      Encontros destes? Se soubesse como me reconciliam com a vida!...
      Simplesmente espantoso, este Homem sábio. Sábio, e com uma informação(?) genética digna de estudo.

      Beijinho.

      Eliminar