sábado, 15 de fevereiro de 2014

Antagonismos. Eutanásia e crianças.

Decididamente, e sem hipótese de erro, sou estúpida, completamente estúpida.
 
A Bélgica, segundo parece, está muito orgulhosa: é o primeiro país a legislar a favor da eutanásia aplicada em crianças.  
Em crianças? Quando ouvi não acreditei!
Quando se discute a eutanásia destinada a adultos, repito, ADULTOS, uma das condições é que os mesmos estejam no pleno uso das suas faculdades e conscientes da decisão que querem tomar.
Muito bem, nada contra! Cada um deverá ter o direito de decidir o que quer, até que ponto está disposto a arrastar uma situação que ele sabe não ter retorno. Mas uma criança?!   
Segundo o Expresso (aqui), a lei belga determina que a autorização deverá ser dada pelos dois pais, acrescentando: 
 
"A lei estipula a possibilidade do recurso à eutanásia quando esse seja o desejo do menor de idade, desde que em estado terminal e de grande sofrimento, que a sua capacidade de discernimento sobre o assunto seja comprovada por um psiquiatra ou psicólogo, e que a decisão tenha o apoio dos pais."
 
A minha questão é esta. Será que uma criança, mesmo um adolescente, tem maturidade para saber exactamente o que quer? Será que lhe disseram que vai morrer, que já não há esperança para ela? Como é que se diz uma coisa destas a uma criança?
Será que vai compreender o porquê daquela condenação (é disso que se trata!), à morte, a razão de ser da opção de escolha?
A sensação com que se fica é que aquelas criaturas nunca estiveram em contacto com crianças vitimas de doença grave, incurável.
Sim, sou estúpida, muito estúpida, mas sempre vos digo, ilustres senhores. A criança perante uma doença incurável - isto em linhas gerais, sem generalizar -, reage desta forma: as mais pequeninas, as que ainda não tem percepção do que se passa com elas, quando o desconforto ou a dor diminuem gostam de brincar, ou seja, gostam de viver. No seu universo, nem sequer vocabular, a palavra morte não existe.
As mais velhas, as que já compreendem, querem ir à luta, seguir em frente, não baixar os braços.
Pois, já sei qual vai ser a vossa questão: "até quando"? O "até quando" vai até que a morte os vença, mas nunca porque eles a procuram.
Sabem da existência de um Serviço chamado "Cuidados Paliativos"? Pois este, destina-se exatamente a minimizar o sofrimento, a prestar os cuidados necessários a que o doente tenha uma melhor qualidade de vida. Será que na Bélgica ainda não existe? Talvez não! 
 
Tinham dúvida sobre a minha estupidez? Pois aqui têm a prova! É que não entendo como é possível tomar "medidas" destas.
Sou estúpida e má. Gostaria que os "inteligentes" responsáveis por este atentado se vissem, um dia, confrontados com a situação de ter que decidir sobre quando um dos seus filhos tinha que morrer.
A minha maldade tem limites.
Não, não desejo que seja quem for sofra a perca de um filho, mas que passasse por uma qualquer situação que os despertasse para uma realidade que, segundo parece, desconhecem.    
 
    
Nota: Negrito e sublinhado meus.

26 comentários:

  1. É um tema arrepiante. Fico sem palavras... quem consegue decidir sobre uma sentença destas?
    Por outro lado se há sofrimento sem retorno, o que fazer?
    Inquieta-me que haja mão humana sobre a vida e a morte mas... Não sei responder a este tema.
    Beijinho.

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    1. Sem dúvida, Ana!
      Não estamos perante um debate fácil, e não é fácil porque é contra natura.
      No caso do adulto, se este estiver no pleno uso das suas faculdades, ainda se pode tolerar mas, apenas e só, se for manifestamente essa a sua vontade.
      Quantos problemas tudo isto pode levantar, quantos?!
      Beijinho.

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  2. De crianças me incomoda muito. Nem sempre os pais são as criaturas mais corretas.
    Bom, não concordo...não.

    bjs

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    1. Simplesmente intolerável!
      Estamos a falar de crianças, meu Deus, crianças!
      Apetece gritar: respeitem-nas, por favor, respeitem-nas!

      Beijinho.

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  3. Há temas que me doem.de tal maneira, que não sou capaz de falar e muito menos de escrever sobre eles mais do que isso mesmo: doem!

    Beijinho

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    1. Doem, indignam, revoltam.
      Que mundo é este, alguém me sabe explicar?!

      Beijinho.

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  4. Se é assim somos dois estúpidos.
    Crianças???
    Os malucos tomaram mesmo conta do asilo!

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    1. Mundo louco e desumanizado, este!
      Há coisas - supostamente "medidas" - tão graves que são impossíveis de entender.
      Fica a revolta, uma revolta intolerável.
      Abraço.

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  5. A notícia também me espantou, se é que alguma coisa me espanta já. Retiro o "espantou" e substituo por "pôs-me a pensar".
    O homem evoluiu durante milhões de anos, as sociedades evoluiram, o conhecimento humano subiu em flecha e depois aparecem estes casos (e tantos outros que já apareceram antes e outros que hão-de vir) e ficamos a pensar...
    O que levará a tomar medidas destas? Hoje a Bélgica , amanhã outro país e depois de manhã muitos mais. Tentando racionalizar: creio que é um problema financeiro (é o que está em cima da mesa agora em todo o mundo). É preciso cortar e vá de "cortar a vida" a alguém que está a "pesar" no orçamento. Claro que as famílias (leia-se a sociedade) também está disposta a "cortar" ou a "deixar cortar". Por outro lado, há certamente casos tão complicados que nem quero pensar estar na posição de os resolver. Tudo é chocante, tudo é complicado e a "evolução" da sociedade é o que é. Em resumo: falei muito e não disse nada, o tema é complicado e para já os belgas vão "simpificá-lo".
    E eu vou-me ficar por aqui, porque não é tema para meia dúzia de linhas.
    Abraço.

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    1. Carapauzito,
      Dá que pensar, e não só!...
      Tens razão quanto à evolução do Homenzito, ao desenvolvimento, etc., etc., etc. A juntar a estes factores esqueceste-te de um outro: a humanização. Pois, essa perdeu-se, e esse é o drama.
      Quando o homenzito, o tal, só vê a parte economicista mesmo tratando-se da vida de crianças, aí, Amigo, lamento muito, mas batemos, não no fundo, mas muito para além disso. E os pais? Qual é o papel dos pais? Haverá alguma Mãe, ou Pai, que tenha coragem de decidir que o seu filho vai morrer naquele instante? Alegam que está em sofrimento? Que pouco sabem de sofrimento! Parece também desconhecerem a existência de serviços (nós temos, na Bélgica não sei) especializados no tratamento da dor.
      Numa coisa concordo contigo. Há casos muitíssimo complexos, só que a decisão de manter vida ou condenar à morte, particularmente no caso das crianças, não cabe a ninguém, ponto.
      Se um adulto, lúcido, no pleno uso de todas as suas faculdades, decidir optar por esse caminho, tudo bem. Mas atenção, a decisão tem que ser dele, não do filho, da mulher, do marido, da mãe, do pai. Não! A decisão é dele e só dele.
      Sabes em que grupo etário penso quando se levantam estas questões? Nos velhos. Ah, pois! Já imaginaste?...
      É a minha vez de ficar por aqui.

      Abraço amigo.

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  6. Fiquei perturbada com a notícia. Quem tem o direito, a coberto da lei, de travar a vida? A eutanásia vai servir para muitas atrocidades. - assassínios e suicídios -, que no fundo é o que ela é, em nome do sofrimento do outro.
    Não sei onde iremos parar com estes avanços de desumanidade.

    Beijinho

    Laços e Rendas

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    1. E quem não fica? Só uma pessoa completamente insensível!
      É que estamos a falar de crianças, de adolescentes! Quem é que tem o direito de decidir a hora, o momento em que devem morrer? Estão a pensar em quem? Será que é mesmo no filho/a?

      Beijinho.

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  7. Eutanásia para " libertar do sofrimento" quem?
    Não sei explicar muito bem, mas a eutanásia pode ser utilizada, mesmo que inconscientemente, por alguns pais, como protecção contra a incapacidade de processar todo aquele amor, dor e medo.
    Nota que não sou a a favor da eutanásia em crianças e adolescentes, ninguém tem o direito de apontar essa porta a outra pessoa, nem estou a tentar desculpabilizar, estou só a pensar. Vivemos numa época de demasiados facilitismos, nivelamentos por baixo, de saber dar-se aos outros e sofrer por eles?

    Abraço grande

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    1. Bela questão! Puseste, e bem, o dedo na ferida.
      Quando referes a eutanásia - se for da decisão dos pais - como modo de se protegerem da dor, de lutar contra o medo, não estarás a falar de uma certa forma de egoísmo? Sem dúvida que todos estes processos são extremamente problemáticos, mas dizer que é chegada a hora de acabar com a vida da criança não exige coragem?
      O problema é a desumanização, um factor que deixas transparecer de forma muito clara, quando questionas quanto ao "saber dar-se aos outros e sofrer por eles?".
      É aqui que reside uma grande parte do problema. A capacidade de entrega, de sofrer com e pelo Outro, perdeu-se.

      Abraço grande.

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  8. Ainda tentei escrever um post sobre o assunto, mas desisti ao perceber que ia ser demasiado inconveniente e os meus leitores não merecem isso.
    Estes belgas devem estar loucos!

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    1. É um tema/problema onde as emoções são difíceis de controlar.
      É a raiva, é a revolta, é a vergonha e uma tristeza imensa.

      Abraço.

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  9. esses povos civilizados que devíamos ter como exemplo (dizem os economistas) são muito 'frios'... detestaria ter a cultura deles

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    1. Ter como exemplo?
      Há "inteligentes" que defendem essa teoria. Pobres deles!...

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  10. Um tema muito doloroso...com opiniões variadas!
    Sinceramente...gostaria de nunca ter de passar por esta decisão tão justa ou injusta!
    Guardo a minha opinião...mas gostei da sua reflexão!!! Bj amigo

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    1. Doloroso, delicado, dramático.
      Posso garantir que nunca passaria por esse drama, por uma razão simples: nunca admitiria essa hipótese.
      Abomino a palavra "nunca", mas neste caso uso-a sem qualquer espécie de reserva.

      Beijinho.

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  11. Respostas
    1. Vivemos numa sociedade não só doente, mas também vazia de valores.
      Há perigos grandes, e vários, quando se pretender legislar sobre esta matéria. Parece que apenas os seus responsáveis não se apercebem dessa coisa óbvia.
      Beijinho.

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  12. Manifesto de incomodidades: Sinto-me mal, muito mal!

    Abraço

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    1. Partilho do mesmo sentimento. Vergonhoso!

      Abraço.

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  13. Assusto-me só de pensar na ideia, parece- me tudo contra natura!

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    1. E não será?
      A quem cabe o direito de decidir pela morte em vez da vida, mesmo que em situações extremas?
      Caminho perigoso, indigno, este!

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