quinta-feira, 30 de abril de 2015

Dor, raiva, indignação, fúria...

... e espanto.
Ainda a capacidade do espanto, algo que pensava já não me afligir.
 
A criança de 12 anos, violada pelo padrasto durante mais de dois anos, engravidou. Todos nós já tomámos conhecimento deste caso, todos (ou quase) ainda levamos um valente abanão com notícias destas.
Estamos a falar de uma criança que estava sinalizada, que já tinha estado institucionalizada, e quais foram as medidas tomadas para proteger esta menina? Ah, pois, o superior interesse da criança era mantê-la com a família, entendo! 
Agora, que engravidou, colocava-se a questão: proceder ao aborto, sim ou não?
 
Vale a pena ler a "explicação"/"justificação" do director Luís Graça:
 
“Como explicara um dia antes ao DN Luís Graça, diretor do serviço de obstetrícia do Santa Maria, "a gravidez, embora seja uma criança de 12 anos, não coloca em risco a vida física, mas coloca em gravíssimo risco a vida mental desta rapariga". (aqui)
 
Sr. director, importa-se de explicar como está, agora, neste momento, a saúde mental dessa criança? Mais. Importa-se de explicar como ficará a saúde mental desta criança após o aborto?
Pois é, é sempre melhor ir pelo caminho mais fácil(?).
Será que a criança foi questionada sobre o queria? Se queria o filho, ou preferia abortar.
Segundo uma das nossas melhores pedopsiquiatras, a criança deveria SEMPRE ser previamente ouvida antes de que lhe fosse feito o aborto. Será que foi?

Depois temos a posição do Hospital.

"A posição oficial do Hospital de Santa Maria, divulgada em comunicado, é que "foi tomada uma decisão considerando o superior interesse da criança" .”(aqui)

Ora digam lá, caros senhores, estão a defender o "superior interesse" de qual das crianças? Da mãe/ criança, ou do seu filho, um bebé com uma gestação de 5 meses? É que estamos perante o superior interesse de DUAS crianças, não sei se já repararam.
Já pararam para pensar como esta criança/mãe a quem foi roubada, da forma mais infame, a dignidade e a inocência, se vai sentir quando lhe roubarem o filho que sentia viver dentro de si?

É óbvio que uma menina de 12 anos não está preparada para ser mãe, da mesma forma que que não me parece que esta seja a melhor solução.

Ora vejamos:

- Estamos perante uma criança que tem sido, desde sempre, VITIMA.
- VITIMA de ter nascido, muito provavelmente, numa família desestruturada.
- VITIMA de falta de amor, de proteção.
- VITIMA de falta de respeito, o respeito que toda a criança exige/merece.
- VITIMA de lhe terem roubado o direito a ter uma vida digna.
- VITIMA de uma sociedade, não só profundamente hipócrita, como irresponsável.
- VITIMA de serviços oficiais, que tiveram conhecimento da sua situação e nada fizeram para a defender/proteger.
- VITIMA de uma mãe que não soube(?) ajudá-la, não se apercebendo, sequer do estado em que se encontrava.
- VITIMA de um homem, que de homem tem apenas o nome.

E justifica-se a opção do aborto, tendo em conta o risco que representaria para a saúde mental desta menina o nascimento do seu filho? Que tal um pouco de respeito pelo sofrimento desta criança?

Rezo, espero(?) que não a encaminhem, de novo, para uma instituição.

Não haverá um braço/abraço/colo para esta criança?
Não haverá alguém que lhe dê um pouco daquilo que nunca teve: AMOR?

Não haverá?
 
Nota: Negrito e sublinhado meu.

 

12 comentários:

  1. Estava mesmo para falar consigo sobre este caso.
    Suponho que adivinhe a minha opinião sobre mais este drama, mas de qualquer forma, digo que a subscrevo na íntegra. Beijinhos dos 5.

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    1. E eu contigo. Sei estarmos em sintonia, nesta como noutras situações que impliquem injustiças sociais, muito em particular se as vitimas forem crianças.
      Quando nos encontrarmos falaremos com calma, deste e doutros assuntos que nos afligem, mas também de outros que nos alegram, os tais que nos fazem manter à tona. :))
      Beijinhos para os cinco.

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  2. Simplesmente nojento...mas hoje ouvi um "perito" dizer que era abusada desde 3/4 anos, todos os dias e várias vezes ao dia. Disse ai juiz que estava muito feliz por ir ser pai! Minha nossa...mentes tão mal formadas!

    Mas GL e não se fala da mãe, mas em 9 anos não viu nada? Olha não tenho palavras e realmente este tipo não deveria existir.

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    1. Segundo as notícias a menina teria sido abusada durante anos e SEM que a mãe se apercebesse. Há mistérios - ou misérias? - que escapam ao nosso entendimento.

      O homem dizia querer tomar conta do filho. Ai sim? Mas como? Não ia ser preso?

      Pobre criança, única verdadeira vitima deste atentado.
      Em relação aos adultos, padrasto e "mãe", uma pena pesadita talvez não fosse descabida.

      Que mundo este, que raiva!!!

      Beijinho.

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  3. ~ ~ ~
    ~~~~ Emocionante o seu apelo!

    ~ Mas na prática, tudo é muito difícil. Não se trata de uma deficiente física, porém,
    ~ é uma deficiente psíquica grave, com profundos traumas e com conduta talvez
    ~ agressiva e chocante.

    ~ Qualquer pessoa pode ter uma avaliação reprovável sobre o comportamento
    ~ destas crianças, mas os profissionais que avaliam estes casos, não.

    ~ É revoltante verificar como foi cometido um erro crasso destes!
    ~ Os monstros, normalmente toxicodependentes, deveriam ser exemplarmente
    punidos, mas não são. Sai muito caro a cura do alcoolismo, por exemplo.

    ~~~~ Também desejo o melhor para esta menina.
    ~ O pessoal das instituições, faz o que pode, muito para além das obrigações,
    mas as casas de acolhimento também estão com contenção de despesas.

    ~ Concordo: só muito amor, infinita solicitude e perseverança a podem curar.

    ~~~~~~ Grande abraço. ~~~~~~
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. Majo,

      Desculpe, mas a criança abusada é deficiente do foro psicológico? Profundos traumas tem, sem sombra para qualquer dúvida, mas se alia a essa situação uma qualquer patologia, então aí a situação agrava-se de forma muito significativa, e com uma muitíssima maior responsabilidade para os profissionais(?) que a avaliaram. A conduta desta menina - a ser agressiva - não seria fruto do pesadelo a que estava sujeita? E os técnicos não têm formação adequada para lidar com estes casos?
      O que dói e indigna mais é que casos de maus tratos a crianças - ainda que não haja violação - são imensos, e como todos nós sabemos só são notícia quando acabam por morrer às mãos daqueles que "cuidam" deles.

      Os toxicodependentes também são vitimas, não consigo "catalogá-los" de outra forma. São indivíduos, eles também, vitimas da sociedade em que vivem. Enveredaram pelo mundo da droga, porquê? Quem lhes lançou a "corda", quando ainda era viável, para que saíssem do fosso em que estavam a cair?
      Tudo isto é extremamente problemático, não estamos a falar de situações de solução fácil, só que os inocentes estão apenas de um dos lados da barricada. Do outro, estão, e estarão sempre os responsáveis que sinalizam estes casos e nada fazem.

      Não duvido que o pessoal das instituições - muitos deles, atrevo-me a dizer que não todos -, fazem o seu melhor, só que há decisões a tomar, medidas a levar a cabo que os ultrapassam. Precisamente por isso é que existe uma cadeia hierárquica, pois que se peçam responsabilidades a quem está no topo.

      Abraço grande.

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  4. Acentuamos a habituação a coisas anormais. Aumentamos, na sequência, a indignação contra o que certas pessoas, ditas importantes, dizem.
    Este caso mostra o que de mais execrável existe no ser humano.
    Seres humanos que deitam cá para fora a irracionalidade que não seria admissível tê-la.

    Espero e desejo que a criança que tem sido vítima, vítima, vítima, consiga ultrapassar esse 'estatuto'. Estando eu ciente de que só com muito amor isso possa acontecer, acredito que vai ser assim.

    De Luis Graça ao Hospital de Santa Maria, um vendaval de disparates.

    Abraço

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    1. Talvez, Observador, só que não consigo "habituar-me" a estes dramas. É caso para dizer a cada um as suas incapacidades.

      Crianças vítimas, não, não aceito. Nem crianças, nem velhos, nem pessoas que por uma qualquer razão estão mais indefesas. O forte a exercer o seu pseudo poder, seja ele qual for, sobre o mais fraco, não.

      O ser humano consegue atingir graus de bestialidade superiores a um qualquer animal, esta é que é a verdade nua e crua.

      Como gostaria que alguém desse um colo a esta menina. Não é fácil - nada é fácil! -, tomar conta de uma criança com este historial. É necessário muito, muito amor, muito espirito de sacrifício, muita entrega, e quem é que tem coragem para isso?
      Pudera eu, e acredite, não hesitava! ~

      Abraço.

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  5. E quantos casos idênticos, não haverá por aí, mais ou menos disfarçados, na iminência de um desfecho idêntico?
    E para mais, esta criança, já estava sinalizada.... seja lá o que for, que isto queira dizer, no nosso país... os judeus, na Segunda Guerra também andavam sinalizados... e muitos não foram salvos... antes se esvaiam em fumo pelas chaminés...
    Subscrevo todas as suas palavras, GL... e o que ninguém nunca poderá devolver a essa criança... será mesmo o direito, de alguma vez ter sido criança.
    Não sei que desfecho, tudo isto terá... mas os danos... já serão permanentes...
    Um super post, GL! Com um tema chocante... mas absolutamente pertinente... de abordagem e reflexão obrigatórias...
    Beijos
    Bom domingo!
    Ana

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    1. Quantos, Ana, quantos? Á medida que forem sendo vítimas de situações limite a imprensa encarregar-se-á de divulgar.

      Sinalizada a criança, ou não, o resultado prático acaba por ser o mesmo, tal como com os judeus. É triste, mas é assim.

      As feridas desta menina são demasiadamente traumáticas para terem hipótese de cura.
      Que revolta, Ana, que fúria contra todos aqueles que podem acudir a estas crianças e nada fazem. É um problema de falta de recursos? Que tal gerirem melhor as verbas destinadas às instituições da responsabilidade da Segurança Social?

      Beijinho, Ana.

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  6. Acompanhei toda a sórdida história.
    E dá-me vómitos só de pensar :(
    Boa semana

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    1. Uma angústia, uma revolta sem nome.
      Quem é que pode ficar indiferente a um caso destes?

      Abraço.

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