terça-feira, 21 de julho de 2015

Recusas


Escrevo.

Uma tentativa de desenhar a letra, desenhar várias, uma a uma, letras que juntas cumpram aquilo para que foram criadas. E de seguida? De seguida virá a palavra.

A palavra veio, mas sem nexo, zangada.

Onde estarão as palavras certas, aquelas que façam um qualquer sentido, que digam verdade? E escapam, sem pudor nem remorso, para um qualquer lugar desconhecido.

Palavra fugidia, palavra que se recusa a cumprir aquilo para que foi criada, palavra cúmplice do vazio, palavra que se recusa a sê-lo. 


Autoria de Gustave Klimt
Hoje, é dia da não palavra.
 E a página em branco.

E o silêncio que se impõe sem pedir autorização.

 

15 comentários:

  1. Tendo sido ontem esse dia, optei por uma abstenção de comentar.
    Deixei em branco as minhas ideias.
    Um beijinho, GL.

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    1. Alguém já me disse que a abstenção nem sempre é positiva. :)

      Beijinho, Observador.

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    2. É um facto. Nem sempre.
      Beijinho

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  2. ~~~
    ~ Uma página em branco
    é absolutamente desolada e deprimente...

    ~ Faz bloquear a mente e aflige...
    ~ Não convida a nenhum tipo de meditação.
    ~ Ao mutismo, sim, concordo. Resignado...

    ~~~~ Abraço amigo. ~~~~~~~~~~
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. Por que não vê-la como uma forma de catarse?!

      Abraço, Majo.

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  3. Faz parte do meu mundo encontrar palavras (e pensamentos) para os vazios e silêncios dos outros.
    Mas acho que às vezes também tem de haver espaço para a não palavra. Os sentimentos ultrapassam por vezes a nossa capacidade de os dizer. Tolerar isso fará parte do crescer?
    Fazemos claro um esforço... Encontramos uma "quase tradução", uma metáfora, algo que se aproxime. Mas às vezes não chegamos "Lá"!
    Valem-nos os poetas, que encontram forma de dizer o indizível.

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    1. Mundo difícil, esse! Encontrar a palavra certa, no momento certo, para aquela pessoa em particular, afigura-se-me não impossível, mas problemático.
      Os sentimentos? Um mundo complexo! Um mundo que exige arte, e engenho, e entrega, e compreensão, e partilha, e respeito.
      Há situações em que verbalizar sentimentos pode implicar um imenso sofrimento - quantas vezes já o testemunhei! - mas é através desse sofrimento que se cresce, que se alcança a superação.

      Abraço, Boop.

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  4. também os silêncios são expressivos...
    e aqui habitam palavras que sabem afirmar-se...

    gostei muito - das palavras que hoje deixas.

    cumprimentos

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    1. Expressivos e necessários.
      O ruído conspurca, adultera, por vezes anula a essência.

      Abraço.

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  5. Este texto parece escrito por alguém que nós conhecemos!
    Queres ver que isto é contagioso?
    Agora a sério, sabes bem que respeito porque sei o que são páginas em branco.

    Abraço grade para ti, para mim...não sei!

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    1. Conhecemos? Muito provavelmente sim!
      Se é contagioso abençoado contágio...

      Abraço grande para nós, pode ser?!

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  6. Não sabia que havia um dia das não palavras.
    Às vezes o silêncio tem mais imapcto do que as palavras.
    Contudo, não imagino o mundo sem palavras.
    Beijinhos. :))

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    1. Pois, e não há, Ana, só que por vezes dava um certo jeito.

      Beijinhos. :))

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  7. Também desconhecia o dia da não palavra...
    Curiosamente, nas palavras... haverá muitas, que são utilizadas para dar voz à falsidade...
    Nos silêncios... pelo menos, a mentira não se faz ouvir.
    Sempre achei os silêncios mais autênticos, do que as palavras...
    Às vezes, mais vale uma verdadeira página em branco, do que uma carregada de falsidade...
    Bjs
    Ana

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    1. O seu a seu dono: este dia foi "decretado" por mim.:))
      Há silêncios que valem por mil palavras, se valem, e penso que todos nós, mais ou menos, já os vivemos.

      A página em branco não só é sempre honesta, como permite voar mais alto.

      Beijinhos.

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