terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Opções, é tudo uma questão de opções!


Um grupo de amigos que se reúnem. Amigos que vão chegando a pouco e pouco para uma tarde passada em conjunto. Dois deles, um casal, entra, cada um com seu telemóvel na mão. Mal transpõem a porta, e sem sequer cumprimentar os restantes, um dos elementos tem esta exclamação que se afigura, magnifica: "a mesa, tão bonita a mesa, vou tirar uma fotografia para enviar para... ". E é um frenesim. E tira uma, e duas, e três e n fotografias.
A anfitriã, ar de espanto, nada diz, mas nota-se o desconforto. Os outros? Esses nem ligam, é que "aquilo" aquela fixação, mais, aquela alienação "faz parte".
E é este "faz parte" que nos devia colocar a questão óbvia
Para onde caminhamos? Que sociedade construímos? Que mundo é este em que somos escravos de máquinas.
Máquinas e mais máquinas.
Máquinas que mostram, máquinas que "espreitam", máquinas que retratam, máquinas que desnudam até à alma.
Máquinas. Telemóveis, smartphones, tablets, toda uma panóplia que poderia ser (e é) de imensa utilidade se usada com inteligência.   
Máquinas que quebram a privacidade, e que impedem o diálogo e a conversa olhos nos olhos. Máquinas que cegam, numa cegueira absoluta.
Máquinas que escondem o que está à nossa volta, que não nos deixa ver o Outro, vê-lo tal qual é, VÊ-LO.
Máquinas que substituem a partilha, a conversa, a cumplicidade.
É isto que queremos para os nossos filhos?
É isto que lhes CONTINUAMOS a transmitir? É este o legado que lhes deixamos?
Quem lhes ensina convivência, mas autêntica? Quem lhes ensina camaradagem, quem lhes ensina o jogo, a gargalhada, o verdadeiramente lúdico?

 *
É isto que queremos? O acompanhado/sozinho?

 *
É esta prisão, estas grilhetas que queremos para as nossas vidas?
Será por acaso, por mero acaso, que já existem instituições para tratamento desta forma de dependência?

 *
É esta tendência para a alteração/deformação até da parte esquelética, que queremos, não só para nós como para as gerações futuras? 

 *
Queremos transformarmo-nos nuns tristíssimos e desgraçados zombies, vazios e ocos de tudo? É isto que queremos?

 *
Ter capacidade de viver o simples e a liberdade. De usufruir do belo, da VIDA, meus caros, da VIDA, esse bem maior, é JÁ uma utopia?

Acordemos. Não teremos, também, uma quota parte significativa de culpa em todo este processo?
Façamos tudo, mas tudo o que estiver ao nosso alcance para inverter este processo, um desastre  mascarado de normalidade.

Recordando o nosso querido José Régio no seu belíssimo poema Cântico Negro afirmo, de forma categórica e muito, muito consciente:

(...)
Não sei por onde vou,  
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí.


* Imagens tiradas do Google

22 comentários:

  1. A dependência dos telemóveis é doentia e profundamente irritante.

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    1. Começa a ser extremamente perigosa esta dependência, com a agravante de muitos não se aperceberem que já estão completamente "apanhados", à semelhança do individuo viciado numa qualquer droga.

      Abraço.

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  2. Faz-me imensa confusão a dependência em relação ao telemóvel. Muita vezes, observamos famílias à mesa dos restaurantes, em que os respectivos elementos não falam uns com os outros porque cada qual está vidrado no respectivo écran. Nas esplanadas também.Parece que desaprendemos de conviver...
    Beijinho, GL!

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    1. Por aí também? Pensava que não!
      Mas é que desaprendemos mesmo, Sandra, não duvide.
      Não sei para onde caminhamos, mas não prevejo um futuro saudável em termos de saúde mental.
      A Sandra ainda cultiva o prazer pelo convívio, pelo prazer de estar junto de amigos, e tudo isso faz a diferença.:)
      Porque é que terei tanto prazer em visitar o seu cantinho?:)

      Beijinho.

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  3. A evolução tecnológica é responsável pelo bom e pelo mau. Compete às gentes do ensino - caseiro e escolar - explicar os contornos de tais situações.
    Esse tipo de dependência poderá ser fácil de controlar. Basta que os responsáveis por cada jovem/adolescente saibam actuar, com responsabilidade.
    Há, no entanto, um outro problema: os adultos vão pelo mesmo caminho perdendo, por isso, a moral que os liberte para uma educação com bons princípios.

    Beijinho, GL.

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    1. Desculpar-me-ás, mas nesta altura já não me parece que seja assim tão fácil de controlar esta realidade.
      Os jovens ouvem quem? Professores, pais? Mas se são muitos deles - pais, professores não sei - os primeiros a dar o exemplo?! Não, não me parece!
      O caso que refiro, e que presenciei, passou-se com uma pessoa adulta, não com uma criança ou adolescente, logo... É triste, mas vivemos numa sociedade completamente alienada, alienada e sem perspectivas de recuperação.:(

      Beijinho.

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  4. "Acordemos. Não teremos, também, uma quota parte significativa de culpa em todo este processo?"

    Claro que temos mas antes dos telemóveis o que faziam muitos avós e até amas...plantavam as crianças em frente a uma televisão.

    Comigo nunca houve nada disso. Ensinei as filhas que havia horas para tudo. Hoje com os netos faço a mesma coisa e espanto...ordens dos pais.:) às refeições e ou almoços familiares não há televisão, telemóveis desligados e a palavra de ordem é: conversarmos sobre tudo:)

    Subscrevo tudo o que dizes e acrescento outra alerta: os phones nos ouvidos!

    Também subscrevo os comentários do Pedro e do Observador!

    Beijocas e um bom serão

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    1. Não há inocentes neste processo, não sejamos hipócritas. Todos, ou quase todos, contribuimos de alguma forma para esta situação.

      No que respeita às crianças continuamos a ter avós, e não só, que optam por lhes oferecer esse "entretenimento":( É lamentável, mas é assim.

      A orientação que deste às tuas filhas, e que segundo parece deu frutos - veja-se o que determinam no que respeita a refeições e ou almoços familiares - é a excepção que confirma a regra, Fatyly.

      Um exemplo a seguir, pena é que poucos o façam.

      Beijinho

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  5. objectos aliás cada vez mais baratos
    e constantemente ultrapassados por outros topo de gama.
    qual vórtice de "produção/consumo" a inundar a humanidade de objectos inúteis
    e prejudiciais.

    quem ganha? quem paga?

    cumprimentos

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    1. Boa questão: quem ganha, quem paga? Resposta óbvia: quem é que "resiste" ao apelo de adquirir o último "brinquedo", o mais sofisticado? Não interessa, não é necessário, mas vende?
      Eis a sociedade de consumo no seu melhor!:(

      Cumprimentos.

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  6. Por favor vire-se um pouco para este lado...isso assim, obrigado...um sorriso...já tá. Ficou linda :))
    O Carapau tb ficou muito bem...

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    1. Como é que se pesca um carapau? Á rede? Á cana? Vamos tratar disso, e já!
      É que assim a selfie fica muito mais janota!:):)

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  7. Um excelente texto. E sim é claro com mais ou menos intensidade, todos nós somos um pouco culpados.
    Eu uso muito o Smartphone para as fotos... da natureza. Não tenho uma boa máquina fotográfica e entre a que tenho e o Smartphone não há grande diferença. Mas uma cena como a que descreve seria inconcebível para mim.
    Um abraço e obrigada pela sua visita lá no meu cantinho.
    Feliz 2017

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    1. Estamos, segundo me parece, perante um problema muito sério, mas que a maioria parece ainda não se ter apercebido (?!).
      Cenas como a que presenciei mostra, à exaustão, que caminhamos - ou já chegámos? - para uma sociedade completamente alienada.

      Não tem que agradecer. Gostei de ir até lá.:)
      Agradeço o voto, que retribuo.

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  8. Não vamos ser mais papistas que o Papa. Com moderação, não se perde nada. Eu mesmo, sua Filha do Coração, a primeira coisa que fiz quando recebi na mesa o belíssimo estaladiço de queijo de cabra (eu sou mesmo alucinada por queijos), a primeira coisa que fiz foi fotografar o dito cujo. E também fotografo mesas, e sei lá mais o quê. Só não converso via messenger com ninguém, isso é só a maior falta de respeito para com a pessoa que está exatamente à minha frente, ou ao lado, seja como for.

    E as minhas fotografias alguma vez lhe faltaram ao respeito? Demonstraram falta de educação? E o mais importante, deixei de ter tempo mais do que razoável para conversar consigo? Penso que não. Se houver um problema difícil de contornar no meio disto tudo, é que quando arranco, nunca mais me calo.

    É tudo uma questão de opções? É tudo uma questão de boa educação.

    Abraço muito apertado, Mãe do Coração.

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    1. Se és alucinada por queijos não admira que quisesses guardar a imagem do dito estalidiço, e que bom aspecto tinha!:)

      Se és fotógrafa é natural que fotografes tudo mas, segundo dizes, e sou disso testemunha, não tens por hábito conversar via messenger com quem quer que seja quando estás acompanhada.Consideras isso uma falta de respeito em relação à pessoa que está contigo? E somos duas! É que é mesmo uma falta de respeito.

      As tuas fotografias? Pois, pois!:) Lindas de morrer faltam ao respeito a quem? A mim não, de certeza!

      Aí está, vez, o exemplo de que se pode conciliar as duas coisas: fotografia e conversa por acaso, só por acaso, super agradável?!

      Filha do Coração, estamos a falar de coisas diferentes ou é impressão minha?:)
      A fotografia, connosco, funciona como partilha, uma partilha magnífica, nunca como obstáculo.

      Bom fim-de-semana.

      Abraço apertado.:)

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  9. A minha opinião....

    Sabes bem que os telemóveis, computadores e todos esses avanços tecnológicos me facilitam a vida.

    Quando vou a um museu e se as artes expostas estão afastadas do meu reduzido campo de visão utilizo uma câmara acoplada ao tablet para poder ver o que vocês deveriam ver normalmente e que eu gostaria de ver assim, sem aparelhos, mas...a maioria das pessoas, agora, vê todas as exposições e eventos através de uma lente ( telemóvel,tablet) e eu não consigo entender.
    Se o meu desejo é poder focar a imagem à vontade, vaguear pelo todo, fixar-me em pormenores que me chamam à atenção , porque é que as pessoas que o podem fazer se limitam a captar tudo sofregamente e depois guardar ? muitas vezes essas imagens nunca mais serão revisitadas e porquê?
    Eu, mesmo sem ver muito bem, gosto de observar tudo ao meu redor. Quando vamos passear de manhãzinha, aqui, junto ao rio ou nos jardins adoro parar e ver tudo que consigo depois guardo na memória junto com os cheiros do fresco do rio e da relva. Nos dias menos bons não preciso de tecnologias para recordar esses momentos que me fazem relaxar, basta activar a minha memória, não fico preso a tecnologias.

    Também preciso dessas tecnologias para comunicar, principalmente com pessoas que não privam comigo, no entanto, ao olhar para o monitor perdemos muitas das expressões que dizem mais que as palavras escritas! Por vezes com os que me conhecem bem, se estão bem perto de mim, basta um olhar.

    Desculpa não conseguir escrever o que sinto de forma mais clara, um abraço grande.


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    1. Por vezes o comentário é incomparavelmente mais esclarecedor que o post, e é o caso.

      Escuso acrescentar o que quer que seja. O testemunho que deixas é a pedrada no charco, aquela que faz a diferença pelo que nos ensina, pelo que atesta entre realidades que parece não se tocarem, mas que nem por isso deixam de ser paralelas.

      A grande diferença Amigo, é que numa impera a lucidez, o pragmatismo, o atestar do lado prático das novas tecnologias que podem ser, e são, de uma imensa utilidade. Por outra, o uso das mesmas sem qualquer proveito, justificação ou bom senso.

      Um grande, grande obrigada por este teu testemunho. Um testemunho vivido na primeira pessoa e que não podia ser mais enriquecedor.

      Abraço grande, Amigo. Abraço muito grato pela belíssima partilha.
      Mantém-te sempre desse lado, por favor.

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  10. Consigo visualizar perfeitamente todas as coisas que descreves.
    Mas escolho outra perspectiva - para efeitos de ampliar o olhar! :)

    Noutros tempos verias que um casal se afastava por outros indicadores.
    Não sabiam dos assuntos um do outro, não se tocavam, não se olhavam, sei lá...
    Ou um adolescente escolhia um qualquer ponto num infinito distante e alheava-se da conversa que e se tinha à mesa...
    Uma criança, entretinha-se a caçar moscas com um copo, envergonhando os pais que queriam que estivesse sossegado no jantar formal...
    Os telemóveis... são só telemóveis.
    Podem ser usados para aproximar como para afastar.
    Mas como descreveste podem também ser indicador do estado das relações - mas não o culpado!
    A internet na ponta dos dedos, quando bem utilizada pode abrir-anos as portas do mundo...
    Saibamos nós ultrapassar o frenesim.

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  11. Tem toda a razão...caiu-se num exagero tal que esse frenesim não deixa viver "realmente" cada momento! bj

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  12. GL, deixa-me ir um bocadinho contra a corrente. As tecnologias têm o uso que nós quisermos dar. Eu, por exemplo, tenho o bendito telemóvel, o tablet e afins. Mas sabes qual a vantagem? Consigo sempre estar em contacto com amigos que de outra forma não veria. Dou-te um exemplo. Vivi muitos anos na Figueira da Foz. Hoje, em Lisboa, quando as saudades apertam e a distância dita leis, estou perto de uma forma que me faz feliz. E também foi assim, por exemplo através do facebook, que redescobri amizades que se tinham perdido no tempo. E não calculas qual foi a minha alegria em voltar a falar com pessoas que foram tão importantes na minha vida.
    É como te digo. A tecnologia é útil se a soubermos usar. Quantas vezes não tive o azar de perder o comboio para casa quando viajava de Coimbra para casa? E sabes que sem aquela música e sem aquele olá das pessoas que eu amo, tudo seria muito mais difícil.

    Beijinhos :)

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  13. A invenção de tantos recursos... mostra o quão inadaptado e insatisfeito é o ser humano!... Para mim... cada vez mais me convencendo, que fomos um erro da Criação...
    Enfim... por estas e outras... é que o meu telefone... apenas faz chamadas... para continuar a olhar o mundo à minha volta... tal como ele se apresenta... ao vivo e a cores...
    Brilhante abordagem deste tema, GL!
    Beijinhos
    Ana

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