Ouvi, há pouco, a entrevista a Valter Hugo Mãe.
Fiquei com a sensação de estar perante um Homem desassossegado, semi crente, semi ateu, um Homem que, mau grado todo o seu percurso, parece não se ter encontrado.
Mas...?
À tarde fui confrontada com um Homem excepcional. Um Homem liberto de todas e quaisquer dúvidas.
Saio, para tomar a bica imprescindível. A pastelaria habitual, cheia. Olho uma mesa ocupada com apenas uma pessoa.
Aproximo-me.
Sentado, tranquilo, um Homem idoso, sózinho, bebe o seu café. Olho-o, sorrio, pergunto se me posso sentar. Rosto simpático, olhos muito azuis, diz que sim.
Sento-me.
Olha-me, "analisa-me".
-
Um vicio, o café, diz.
Concordo.
E a conversa surge, naturalmente. A determinada altura faz uma pausa e, de chofre a pergunta:
- Que idade me dá?
Respondo:
- 70 anos.
Sorriso gaiato, tira a carteira do bolso, mostra o Bilhete de Identidade.
- Veja aqui "ordena".
Olho, e...? 92 anos! Aquele Amigo tinha 92 anos.
Boquiaberta, não queria acreditar!
A conversa continua.
E fala de História, e fala de política, e fala das potencialidades do país em termos agricolas e piscatórios. E critica as medidas que estão a ser tomadas.
E fala da juventude, da dele e da actual. E da vida desses anos idos. E das regalias laborais que tinham.
- Eu trabalhava na Carris, no tempo dos ingleses, esclarece.
E aponta os caminhos a seguir. E eu maravilhada, e eu a beber cada palavra, cada gesto.
É que sentado à minha frente estava, não apenas um Homem, mas um pedaço de História.
Levanto-me, despeço-me.
Caminho fora agradeço a Deus aqueles momentos. Bendigo a lucidez com que presenteou aquele Homem, uma lucidez absolutamente espantosa.
Pegando nas palavras/dúvidas de Valter Hugo Mãe interrogo-me: se Deus existe, porque contempla tão poucos com esta benção?
Hoje?
Hoje pela mão daquele Homem sábio, vivi momentos mágicos.
NOTA: As minhas desculpas pela "mancha" anterior do texto, pelos lapsos vários. Queria postar ontem, (receava hoje não ter oportunidade) tendo como único recurso o telemóvel, o que (me) limita seriamente a elaboração de um texto minimamente aceitável.